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Teatro: muito além da peça de fim de ano

alunosNo CMEI Vila Verde II, em Curitiba, toda semana as crianças têm um momento especial dentro da rotina: a oficina de teatro. Ela é conduzida pelos educadores Vaniluci de Souza Ferreira e Leones Chiquitti Júnior, que fazem parte da equipe escolar e são responsáveis pelo projeto nas 11 turmas de 4 e 5 anos, com 25 crianças cada uma. A ideia surgiu com o grupo teatral Caras e Bocas, criado pelos docentes em 2006. “No início, os adultos somente encenavam peças para os pequenos. Com o tempo, conseguiram parcerias e expandiram o projeto, dando início às oficinas”, diz a professora Michele Wormsbecker, uma das responsáveis pela iniciativa.

A proposta é fazer com que as crianças tenham acesso à linguagem teatral por meio de vivências. “Nosso objetivo não é apenas a representação, mas o processo que leva a ela”, diz Vaniluci. As oficinas duram entre 40 minutos e uma hora e acontecem ao longo de todo o ano. Paula Zurawski, graduada em Artes Cênicas e mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), destaca a importância da regularidade das práticas voltadas à linguagem teatral na Educação Infantil. “Da mesma forma que a gente mantém atividades permanentes de artes visuais no cotidiano, as cênicas também devem ter constância. Caso contrário, o teatro se torna algo ocasional, pontual e limitado, não fazendo com que as crianças se apropriem de conhecimentos específicos da criação dentro dessa arte”, defende.

As oficinas se dividem em dois momentos: nos primeiros meses do ano, são trabalhados sentimentos, sensações e expressões corporais e faciais. Depois, as turmas entram em contato com elementos do teatro, como figurino, iluminação, maquiagem e cenário. Para escolher as atividades, o grupo se baseia nas Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil da Prefeitura Municipal de Curitiba e fica atento aos desejos e às necessidades dos pequenos. “No começo, não usávamos tanto a iluminação. As crianças pediram atividades com luzes diferentes e incluímos o tema nas oficinas”, exemplifica Vaniluci.

Sentir, conhecer e se expressar

Uma das atividades realizadas na primeira etapa do trabalho é a de expressão facial. Sentados em roda, todos conversam sobre o rosto humano e sobre como ele revela sentimentos. Os educadores perguntam o que faz eles se sentirem felizes, tristes, bravos etc. Depois da discussão, pedem que a turma escolha uma canção infantil, dentro do repertório que conhece, e explicam: “Vamos cantar essa música expressando sentimentos e fazendo cara de alegre, triste, choro, desconfiado, bravo e assustado”.

Na oficina seguinte, o desafio é representar um animal usando apenas gestos e expressões, sem falar. A turma é colocada em roda, uma criança vai para o centro e faz a mímica. Os colegas tentam adivinhar sobre o que é, sem a participação de Leones e Vaniluci. Depois de alguém acertar, os dois questionam as crianças sobre o que poderia ser feito para complementar a performance e elas são convidadas a reinterpretar à sua maneira. “Um menino imitou um tiranossauro rex, mas ninguém conseguiu adivinhar. Um colega, então, disse: ‘Mas tiranossauro rex não é assim’. Depois, fez o bicho à sua maneira”, conta ela.

Outra oficina interessante é a do chamado espelho vivo, fundamental no jogo teatral. Na sala, há um espelho, e as crianças são convidadas a ficar na frente dele, fazendo movimentos e analisando o que acontece. A educadora propõe, então, a brincadeira. Os pequenos são colocados em duplas e um tem de repetir exatamente o que o outro faz, invertendo os papéis depois. Paula ressalta o valor dessa atividade: “É muito desafiador se colocar na frente de um colega e tentar fazer o que ele faz, em silêncio. Uma grande sincronia entre os dois é necessária”.

Para a especialista, os professores têm de ter claro que o teatro é um jogo. As atividades realizadas em sala, portanto, precisam tratar desse trabalho conjunto. “Se eu crio uma cena e o meu colega não está concordando comigo, a situação teatral desaparece”, defende.